quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Liga da Justiça

É triste pensar que a primeira aventura da super-equipe de heróis mais icônica dos quadrinhos chegue debaixo de grande desconfiança. Apesar do sucesso de Mulher-Maravilha, o desempenho no mínimo duvidoso de Homem de AçoBatman Vs Superman  deixou  público com o pé atrás. Ao menos a desesperança combina com o mundo em que os personagens estão inseridos.

Superman (Henry Cavill) está morto. Aparentemente, toda a esperança do mundo morreu com ele. Enquanto isso, Bruce Wayne (Ben Affleck) tenta se preparar para a ameaça anunciada no longa anterior. O ataque iminente de um inimigo que ameaça dominar o planeta inspira a união inédita de uma super-equipe formada por Batman, Mulher Maravilha (Gal Gadot), Aquaman (Jason Momoa), Cyborg (Ray Fisher) e Flash (Ezra Miller).

Buscando novos caminhos para as adaptações da DC nas telas, Liga da Justiça se passa no mundo que sofre as consequências das batalhas anteriores mas não carrega o mesmo peso dos filmes anteriores. Equilibrar a gravidade anterior com tom mais aventuresco, para agradar um público mais extenso é o grande desafio do longa.

A tarefa é cumprida, mais leve e divertido a reunião de heróis deve agradar a maioria. Mas, apesar de funcionar, a mudança não vem sem perdas. A mais evidente é a falta de urgência da ameaça, o Lobo da Estepe (voz de Ciarán Hinds) é a maior ameça que o mundo já enfrentou, capaz de mobilizar humanos, atlantes e amazonas. Entretanto, a destruição que ele traz tem menor impacto que a luta entre Zod e Superman, por exemplo. Seu visual completamente feito por computação gráfica também não ajuda a torná-lo ameaçador, é bem feito, mas tem pouca personalidade. Colocando o personagem na mesma categoria que os vilões da Marvel, na função de servir de escada para os heróis.

Já seu plano, é simples e fácil de compreender, reunir poder e usá-lo para dominar o mundo. Talvez simples até demais para fãs que conheçam o histórico do vilão nos quadrinhos, mas acessível para o grande público não iniciado. Com um desafio simples sobra espaço para trabalhar os heróis. Tempo mais que necessário, afinal são seis personagens a serem trabalhos individualmente e como grupo. O foco, é claro, está na Trinidade. Bruce se prepara não apenas para a ameaça, mas também lida com o sentimento de culpa pela morte do Superman. Diana precisa restabelecer seu espaço após um século de reclusão, empoderando ainda mais sua bem sucedida Mulher Maravilha. E o Superman... bom, ele está ausente.

Enquanto isso os outros membros da liga são melhor apresentados e  tem funções bastante específicas. O personagem mais recente do cânone, Victor Stone, o Ciborgue, tem uma relação interessante com as caixas maternas, objeto de desejo do vilão, mas tem pouco tempo para desenvolver os traumas que o tornaram atormentado. Menos sociável que sua versão para a TV, Barry Allen, o flash de Ezra Miller é responsável por boa parte dos momento cômicos. Já Mommoa, se encarrega de reconstruir a figura do injustiçado Aquaman para o grande público. Marrento, beberrão e aproveitando o carisma de seu intérprete, o personagem entrega o que promete e teria impressionado ainda mais, se os trailers não tivessem estragado a surpresa de suas melhores cenas de ação.

Os efeitos especiais não impressionam, apenas funcionam e o 3D é dispensável. E eventualmente uma ou outra piadinha parece fora de tom, nada que comprometa a produção. Já o design de produção acerta em criar uniformes que atendam as necessidades de cada um, mas ao mesmo tempo tenham unidade em cena.  No geral o filme cumpriu bem sua complexa tarefa, tornar os universo da DC nos cinemas mais palatável para o grande público. Graças aos foco em seus personagens, tudo bem se o vilão não é incrível, é com os heróis que nos relacionamos. E cada um deles ganha possibilidades de novos rumos solos, a partir daqui, especialmente o Superman, que volta a ser o símbolo esperança que costuma ser.

Liga da Justiça não é um filme tão bem resolvido quanto Mulher-Maravilha, mas funciona melhor que Batman Vs Superman. Deve agradar o grande público, garantir a sobrevivência da franquia. Assim, a DC ganha tempo para definir melhor estes novos rumos nas aventuras futuras. Em outras palavras, assim como no filme, a esperança está de volta neste universo.


Liga da Justiça (Justice League)
EUA - 2017 - 120min
Ação, Aventura

P.S.: Existem duas cenas pós créditos!

Leia as críticas de Homem de Aço e Batman Vs Superman e Mulher-Maravilha
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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Informações úteis para sua maratona de Alias Grace

O mundo está redescobrindo Margaret Atwood, afinal suas obras povoadas por mulheres fortes encaixam como uma luva com o cenário atual. Entretanto, apesar das semelhanças temáticas e do fato de The Handmaid’s Tale inevitavelmente vir a mente assim que pensamos em Alias Grace, é bom avisar são trabalhos muitos distintos.

Grace Marks (Sarah Gadon) era uma adolescente em 1843 quando foi condenada à prisão perpétua por assassinato. Quinze anos depois o Dr. Jordan (Edward Holcroft), especializado em problemas da mente vem estudar seu caso, já que a moça alega não ter memórias do crime que a pôs na prisão, fazendo com que sua participação seja uma incógnita.

Informações úteis para sua maratona de Alias Grace


1 - Alias Grace é mais uma feita pela Netflix em parceria com a emissora canadense CBC, a mesma de Anne with an "E". O serviço de streaming é responsável pela distribuição mundial.

2 - Baseado no livro de Margaret Atwood, que por sua vez é inspirado em um caso real. Grace Marks realmente existiu, assim como o caso de assassinato e as dúvidas quanto ao seu envolvimento. Entretanto, as situações e a maioria dos personagens retratados no livro e na série são ficcionais.

3 - A roteirista Sarah Polley tentou adquirir os direitos de adaptação da obra em 1996, ano de seu lançamento. Levou mais de vinte anos para conseguir entregar a obra pronta.

4 - É provável que você fique confuso quanto a idade de Grace ao chegar no Canadá, e principalmente durante o primeiro trabalho que consegue. Isso acontece porque a produção optou por manter Sarah Gadon em todas as fases da vida da protagonista. Apesar de a escolha ser acertada - Gadon consegue conferir realismo a todas as idades de Grace - e da maquiagem ser eficiente, a dúvida ainda persiste, mas não dura muito. O bom trabalho de sua intérprete consegue conferir a inocência necessária à personagem, nos fazendo relevar a este detalhe.

Nos últimos episódios da série, descobrimos que na época do crime Grace tinha 16 anos, assim como a versão da vida real. Esta última teria chegado ao Canadá aos 12 anos.
Grace com 12 anos? 
5 - Assim como na série, a verdadeira Grace cumpriu parte da pena em um manicômio e posteriormente foi perdoada e libertada por bom comportamento. As datas em que essas mudanças aconteceram, no entanto, não são necessariamente as mesmas na TV e na vida real.

6 - Zachary Levi interpreta Jeremiah na série. Seu primeiro trabalho de destaque foi como protagonista da série Chuck, nerd que tem um supercomputador instalado acidentalmente em seu cérebro e por isso passa a ser monitorado pela a Agente Sarah Walker (Yvonne Strahovski). Strahovski faz parte do elenco The Handmaid’s Tale, série baseada em outro livro de Atwood, também lançada por uma plataforma de streaming em 2017.

7 - O cineasta David Cronenberg, participa da série como o reverendo Verringer.

8 - Caso não tenha ficado claro, o suposto "parceiro" no crime de Grace, James McDermott, foi condenado e enforcado após o julgamento.

9 - Todos os homens retratados na série são culpados de uma forma ou outra, ou no mínimo cometem atos altamente condenáveis. Mesmo aqueles tidos como "homens de bem" como o Dr. Jordan, ou o jovem Jamie Walsh.

10 - E por falar no D. Jordan, se ele lhe parecer familiar, o outro trabalho de maior destaque de seu intérprete Edward Holcroft é o almofadinha irritante Charlie, presente nos dois filmes da franquia Kingsman.
11 - A obsessão do Dr. Jordan por seu objeto de estudo é retratado não apenas pela aparência do personagem que decai ao longo dos episódios, mas também pela proximidade física de suas sessões. No início separados por uma sala inteira e uma mesa, na última conversa os personagens falam sentados tão próximos frente-a-frente que seus joelhos se tocam.

12 - A única personagem realmente não faz julgamentos sobre Grace é uma empregada negra, que afirma que não vai condenar alguém por se levantar contra seu senhor. Adicionando ainda mais camadas no complexo caso.

13 - As colchas de retalhos que Grace borda constantemente e cita em alguns momentos, são uma analogia a forma complexa com que sua história é contada.

14 - Você vai achar que Grace é inocente, depois culpada, inocente novamente, e em alguns momentos até que suas motivações talvez justifiquem o ato. Depois de ter uma opinião oscilante pela temporada inteira, não vai chegar a nenhum resultado definitivo. E isso é ótimo! A dúvida, e a discussão sobre a sociedade em questão são muito mais interessantes - e importantes - que o veredito.

15 - O julgamento de Grace nos livros e na vida real teriam acontecido em 3 e 4 de Novembro de 1843. A série foi liberada na Netflix em 3 de Novembro de 2017.

156 - A série foi apresentada como "limited series", o que significa que não devem haver novas temporadas, mesmo porque a história não deixa margens para continuações.
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Alias Grace tem seis episódios com cerca de uma hora de duração cada. Todos estão disponíveis na Netflix. Leia a crítica da série!
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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Você está pronto para voltar ao Titanic?

É claro, estou falando do filme de James Cameron, não do navio de verdade, embora a produção por si só já promova um retorno à famosa embarcação. Seja qual for sua resposta, você deve estar curioso do porque resolvi fazer esta pergunta. A resposta é simples: acredite ou não, Titanic completa 20 anos em 2017!

Eu, sei. Parece que foi ontem que o filme evento estreou, você ainda lembra onde assistiu pela primeira vez (eu lembro até de quando estreou na TV aberta, dividido em duas partes), e agora te fiz se sentir velho. Ou você nem tinha nascido e não faz ideia da ideia do porquê de tanta produção. Em ambos os casos o retorno ao filme é mais do que necessário. Seja para a molecada com menos de duas décadas entender o impacto que a produção gerou. Seja para os veteranos, dissiparem aquela sensação de "modinha" que nos fez enjoar da música de Celine Dion, e lembrar o verdadeiro motivo de tanto sucesso: um bom filme.

Admito, eu tinha esquecido o quão bom era Titanic, quando topei assisti-lo novamente no cinema à convite da rede UCI em 4DX*. Diferente de muita gente eu só ó vi na tela grande uma vez, lá em 1998 (o filme é de 1997, mas no Brasil o filme só estreou no início do ano seguinte) e não consegui ver a versão 3D comemorativa de 15 anos em 2012. O resultado, o filme continua impactante e com o bônus agora que conheço a história posso me deliciar melhor com os detalhes.

É verdade, algumas imagens em CGI, começam a ficar datadas, mas o esmero da produção que custou mais que o navio real nunca deixa de funcionar. Aquele navio existe! Assim como os personagens vividos pelo elenco afinado, e a trama bem construída para gerar alma e empatia naquele que poderia ser apenas mais um filme catástrofe.

O tempo adicionou referências acidentais como o sorriso involuntário ao ver Victor Garber em cena. O intérprete do construtor do Titanic fez piada em seu trabalho atual DC Legends, série de TV com viagens no tempo, sobre punir quem construiu o navio. Ironicamente seu personagem no filme ainda se despede em uma cena em que ajusta um relógio.

Ou a melhor de todas: descobrir que os homens de quem Jack ganha as passagens para o navio em um jogo de poker se chamam Olaf e Sven. Como não pensar que com os amigos à bordo, Elsa teria poupado à todos do iceberg?

*Agora a dica útil para você que quer rever o jovem clássico na tela grande!

Viu, não faltam motivos para voltar ao transatlântico, e o momento é perfeito! A rede de cinemas UCI também está completando 20 anos e vai comemorar com o UCI Day marcado para a data do aniversário da rede no Brasil, 13 de novembro, e reexibição de Titanic em 3D, IMAX e 4DX (aquela sala cheia de efeitos e com movimento das cadeiras acompanhando o filme). Oportunidade perfeita para quem não viu ou quer rever o longa na tela grande, e na melhor qualidade possível.

Para a dica ficar completa: outro clássico que você vai poder conferir na tela grande na próxima segunda é Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg. Neste dia de aniversário toda a rede estará com ingressos mais baratos para toda a programação em cartaz. Algumas sessões já tem venda antecipada. A programação completa está disponível no site oficial da rede UCI.
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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Alias Grace

Analisando friamente, não é exatamente uma surpresa que as obras de Margaret Atwood estejam sendo redescobertas por novas mídias. Mas, é curioso, e com certeza preocupante, que ainda em 2017 seus temas e críticas sociais sejam tão atuais e relevantes, sejam eles abordados em uma distopia futurista, ou no Canada do século XIV. É neste segundo contexto que se passa a trama de Alias Grace, nova série da Netflix.

Grace Marks (Sarah Gadon) era uma adolescente em 1843 quando foi condenada à prisão perpétua por assassinato. Quinze anos depois o Dr. Jordan (Edward Holcroft), especializado em problemas da mente vem estudar seu caso, já que a moça alega não ter memórias do crime que a pôs na prisão, fazendo com que sua participação seja uma incógnita.

Com a protagonista como narradora nada confiável, a trama de Alias Grace vai e volta no tempo para contar a história de Grace, abordando não apenas a versão da moça dos fatos, mas de outras pessoas envolvidas nos eventos. O resultado é um intrigante quebra-cabeças, ou colcha de retalhos se preferir utilizar a analogia da própria série, que mesmo depois de montado, nunca de fato é solucionado.

Grace é culpada ou não? A incógnita permanente não é um problema, pelo contrário. Ela não apenas move a trama, mas mantém o expectador interessado, e serve de instrumento para criticar esta sociedade patriarcal não muito distante da nossa própria. Mulher e pobre, Grace viveu uma vida de abusos e nunca teve voz própria verdadeiramente. Afinal mesmo nos momentos em que pode se expressar esta fala não era realmente ouvida, fora manipulada por aqueles que se supunham superiores à ela, ou vinha carregada da análise gerada por seu lugar pré-determinado e imutável na sociedade.

Tal ambiguidade só é possível graças à excelente atuação de Gadon, que consegue transmitir as várias personalidades de Grace - a moça aprende a moldar seu comportamento para sobreviver a cada situação - sem nunca parecer caricata. É verdade que pode existir uma certa dúvida quanto a idade da personagem no início da jornada, já que a mesma atriz a interpreta desde o início da adolescência até a maturidade, mas nada que se torne um empecilho para se envolver com seus dilemas.

O restante do elenco, está igualmente afinado, com destaques para Holcroft que passa de forma sutil a decadência e obsessão do Dr. Jordan conforme ele se envolve no mistério de Grace. Rebecca Liddiard é outra grata surpresa. Sua vivaz, doce e ingênua Mary Whitney, conquista seu espaço logo que aparece em cena, tornando sua jornada mais dolorosa e sua presença permanente mesmo quando não está presente.

Ciente da eficiência de seu elenco, e da importância das nuances e sutilezas para abordar as muitas camadas desta história. A diretora Mary Harron acerta em dar tempo para observarmos pequenas reações e gestos dos personagens, sem medo de se demorar em alguns takes. Em outros, torna a edição mais dinâmica enfatizando a urgência em torno de um assassinato.

Reforçando a ambiguidade da personagem e o mistério sobre os fatos, a fotografia acerta ao escolher a luz natural tanto para dar toques de realismo, quanto um aspecto lúdico à narrativa. O mundo de Alias Grace, parece ao mesmo tempo natural e verídico, mas também belo demais para um mundo de abusos e injustiças. Excelente também é o trabalho da direção de arte, tanto na reconstrução de época quanto na significância dos detalhes. Das colchas de retalhos que Grace costura constantemente - com justificados closes em suas mãos - à discrepância entre as roupas das classes distintas, tudo tem sua função para tornar esta uma história bem contada.

Já que a comparação com a outra obra Margaret Atwood, que virou série este ano, é inevitável, vamos a ela. The Handmaid’s Tale (baseado em O Conto da Aia) e Alias Grace (do livro Vulgo Grace), trazem semelhanças ao abordar e criticar mazelas da sociedade de forma contundente, mesmo se utilizando de uma ficção para tal. E sim, nesta análise compartilham muitos de seus temas. Mas enquanto The Handmaid’s Tale, cria um universo rico e com oportunidades de abrigar outras histórias, Alias Grace é centrado em sua protagonista e na sua muito psique, eliminando chances - e a necessidade - de sequências. É uma obra completa e fechada, trabalha os temas e personagens que se propôs sem pontas soltas ou material desnecessário. As diferenças não tornam uma obra melhor que a outra, apenas as transformam em obras distintas, porém igualmente necessárias.

Alias Grace tem um texto rico, e as vezes até um pouco longo, mas eficiente, cativante e necessário. Com um grande mistério como centro, a série faz uso de personalidades complexas, dilemas e situações reais - o livro foi inspirado em um caso verdadeiro -  e até de elementos sobrenaturais e de psicologia não para inocentar ou condenar Grace, mas para apontar e criticar o mundo de opressão, hipocrisia, abusos e dor que a colocou nesta incógnita.

 Alias Grace tem seis episódios com cerca de uma hora, todos já disponíveis na Netflix. Leia a crítica de The Handmaid’s Tale, outra adaptação de um livro de Margaret Atwood para a telinha.
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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

1922

Não é de hoje que Stephen King tem muitas de suas obras adaptadas para as telas. Entretanto 2017 está chamando atenção não apenas pelo volume de produções, mas também pela diferença de qualidade entre elas. It: A Coisa é de longe a melhor produção do ano, enquanto a série O Nevoeiro e o longa A Torre Negra se destacam como fiasco de público e crítica. O filme da Netflix, 1922, no entanto, chega para a figurar a maior lista, a de produções medianas.

O pacato fazendeiro Wilfred James (Thomas Jane), tinha a vida perfeita, terra para plantar e um filho para quem deixá-la. Tudo parecia que ficaria ainda melhor quando a esposa recebe 40 hectares de herança, que tornaria sua fazenda duas vezes maior. Mas Arlette (Molly Parker) tinha outros planos para a propriedade, vender tudo e morar na cidade. Incapaz de dissuadir a esposa que ameça abandoná-lo, James decide resolver a situação de forma nada ortodoxa. Ele manipula seu filho adolescente Henry (Dylan Schmid) para ajudá-lo a matar a esposa.

Calma, eu não te dei um spoiler no paragrafo acima. O assassinato por motivo torpe está na sinopse e a confissão do ato longo nos primeiros minutos de projeção. O filme de fato é uma enorme confissão de  Wilfred James, e é provavelmente nesta escolha que está o maior problema da produção. Contando a história desde o início, o protagonista/narrador não hesita em narrar aquilo que bem entende, mesmo quando esta intrusão não é necessária, atrapalhando a imersão completa em alguns momentos de tensão. Outro problema da narração, é a sua mistura com falas dentro da narrativa - você acha que se trata de uma narração, mas ao fim da cena se trata de um diálogo com outro personagem. Um efeito legal, mas que pode gerar confusão antes que o expectador compreenda seu uso.

A trama, segue uma lógica simples e objetiva, e por isso funciona. O personagem opta pela "solução fácil" e paga por isso, em um primeiro nível vendo seus planos brilhantes desmoronarem e perdendo tudo. E no segundo e mais assustador nível, o psicológico. Corrompido pela culpa, nunca temos certeza se Wilfred está mesmo sendo assombrado, ou perdendo a sanidade. - Embora eu ainda esteja me perguntando como uma alucinação poderia causar ferimentos reais, como uma mordida de rato.

Alucinação ou assombração, não importa. A graça de  1922 é a tensão constante e crescente, e o crescimento do desespero - ou seria desesperança? - do protagonista, esteja você torcendo a favor ou contra ele. Efeito devidamente alcançado pela fotografia que se torna mais escura e sombria conforme o longa evolui e pela excelente atuação de Thomas Jane que consegue criar empatia através do bronco, porém calculista, fazendeiro.

O elenco eficiente conta ainda com Molly Parker, Neal McDonough (Arrow, DC Legends) e Brian d'Arcy James (13 Reasons Why). O escorregão fica por conta do jovem Dylan Schmid, que apesar de esforçado não consegue atender à complexidades e nuances de um filho manipulado para aceitar o assassinato da mãe. A interessante, porém apressada sequencia que desenvolve seu arco na vida do crime também não ajuda no desenvolvimento de Henry.

Mais voltado para a construção de do clima e enfase da tensão, do que para sustos fáceis, 1922 traz algumas sequencias bastante nojentas, garantido que mesmo aqueles de nervos mais fortes saiam incomodados da tensão. Um trabalho eficiente da maquiagem e design de produção. Este último ainda se destaca na reconstrução de época, caso você ainda não tenha notado a história se passa na segunda década do século XX.

1922 consegue entregar o que se propôs a fazer, mas o ritmo mais lento, pode decepcionar os fãs de terror tradicional. Simples, bem realizado e tenso, esta adaptação de um conto de Stephen King, presente no livro Escuridão Total, Sem Estrelas, não é excepcional, mas funciona.

1922
Canadá - 2017 - 101min
Suspense, Drama
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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Aquilo que faltava na Netflix!

A maioria das "pessoas normais" não liga, mas todo cinéfilo e amante de séries que se preze amava a era de ouro dos DVDs por um simples motivo: os extras.  Entrevistas, comentários em áudio, cenas deletadas, versões do diretor, bastidores e as vezes até uns textões difíceis de ler na tela e uns joguinhos ruins de executar com o controle remoto.

Esse material que não cabia no VHS, achou um lar nos disquinhos prateados, e ainda mais espaço nos não tão bem sucedidos blu-rays. Eram mais comuns, e volumosos, nas edições especiais, mas as vezes também tinham coisas interessantes nas versões das locadoras. E é por causa desse material extra que aquele seu colega aficionado tem uma estante repleta de DVDs. Não estávamos comprando apenas as 2 horas de filme ou 1 temporada da série afinal.

Dito isso, apesar de amarmos a variedade e principalmente o preço das plataformas de streaming preciso confessar, eu sinto falta do material extra. Mas a Netflix já mostrou que é possível disponibilizar esse material. Será que você notou?

Logo depois da liberação da primeira temporada de Sense8, a plataforma disponibilizou Sense8: A Criação do Mundo. Um making-off com os complexos bastidores da produção que envolve muitas cidades e trucagens de câmera para colocar vários sensates na mesma situação. Um prato cheio para amantes da série e de produção audiovisual em geral.

Chamando muito mais atenção que o material extra das irmãs Wachowski, a plataforma liberou pela primeira vez conteúdo especial de uma das suas séries mais populares (admito que Sense8 é difícil). O Universo de Stranger Things, traz uma série de entrevistas com o elenco e equipe da segunda temporada do programa.

A questão é: esse material vai ter tanto apelo quanto a série em si? Fãs, cinéfilos e serie maniacos devorarão, mas o interesse vai ficar só neles? Ou vai crescer para gerar mais episódios especiais? Se crescer, seria o suficiente para abrir espaço para outras produções ou isso seria restrito apenas aos campeões de audiência? Nem vou começar e me questionar sobre extras de produções que não são originais da Netflix.

Enquanto o desdobramento deste novo material disponível no streaming não vem, conte pra gente, você curte material extra? De qual série gostaria que a Netflix lançasse making-offs e entrevistas?

Leia mais sobre NetflixSense8 e Stranger Things
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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Stranger Things 2

Não são mais apenas as crianças que percebem coisas estranhas acontecendo nos arredores de Hawkings, apesar da maioria da população ainda continue alheia à realidade. Da mesma foma, a chegada desta temporada Stranger Things, não é mais uma surpresa curiosamente maratonada em massa, mas sim uma expectativa criada ao longo de um ano de espera e uma publicidade eficiente. Tentar atender as expectativas e superar, ou pelo menos se igualar ao original são sempre os maiores desafios de uma continuação.

Um ano se passou desde Will (Noah Schnapp, finalmente com espaço para atuar e muito bem) "se perdeu no bosque", com dezenas de promessas feitas e assinadas os personagens envolvidos no incidente deveriam simplesmente seguir com suas vidas, mas é claro que não é tão simples assim. Entre outros traumas menores, Mike (Finn Wolfhard) continua de luto por Elleven (Millie Bobby Brown), Nancy (Natalia Dyer) se culpa pela morte de Barb (Shannon Purser), o chefe de polícia Hopper (David Harbour) tem seus segredos e Will continua sofrendo os efeitos colaterais de sua estadia no mundo invertido. Ou seja, a estabilidade se sustenta sob uma linha fina que pode ser atravessada a qualquer instante.

É para desestabilizar essa linha que chegam os novos personagens, completamente alheiros a tudo que aconteceu no ano anterior. À começar pelo easter-egg ambulante Bob Newby (Sean Astin). É o eterno Goonie quem faz a história andar de encontro à nova ameaça, o monstro das sombras. 

Os irmãos Max (Sadie Sink) e Billy (Dacre Montgomery, o novo Ranger vermelho), vem complicar o desenvolvimento. O rapaz é o encrenqueiro de verdade, muito além dos "níveis escolares" de contravenção. Já "Mad Max", é a nova aquisição do grupo mirim, mas precisa lidar com o fato de ser excluída por não ter vivido a maior das aventuras, até então. Outro que chega com função bem definida é Murray Bauman (Brett Gelman), o teorista da conspiração está longe de desvendar os "bagulhos sinistros", mas sabe manter o clima de paranoia na medida certa, entre outra coisas.

Se os personagens novos tem funções bem definidas, e alguns já devem conquistar um espaço nos nossos corações, os velhos conhecidos só tem a crescer. Antes todos estavam focados na busca por Will, agora embarcam em dilemas diferentes e que acertada e inevitavelmente se encontrarão no bem amarrado desfecho. Assim todos, inclusive os novatos, tem espaço para desenvolver seus arcos, que nem sempre incluem ameaças sobrenaturais, o mundo normal pode ser tão complicado e assustador quanto o invertido. Além de reforçar as relações entre os personagens, afinal ver aquela molecada trabalhando junta para "salvar o mundo", com o jeito e preocupações de crianças é o que mais encantou no ano anterior.


Os novos caminhos incluem um episódio solo de Eleven. “A Irmã Perdida”, destoa dos demais episódios propositalmente e inicia a saga de auto-descoberta da menina e deixa algumas pontas a serem exploradas mais para frente. Uma saída interessante para tirar a arma mais poderosa de Hawkings até o clímax - afinal com a garota por perto a ameaça sobreviveria por um episódio apenas #GirlPower - mas que se não explorada pode soar como desvio ou enrolação para prolongar a ameaça. Mas, acho difícil que os irmãos Duffer não tenham planos quanto a esta história.

Mais cinematográfico que o primeiro ano - repare que o título incluí o numero "2" como em filmes, e não o tradicional "2ª temporada" - a série aproveita a para caprichar mais no visual, brincando com planos e a fotografia. Além de aumentar a escala dos bem executados efeitos visuais, não de forma gratuita, mas para atender à história. A ameaça está crescendo, logo os monstros de CGI também.

Além das criaturas, estão de volta as adoradas referências, desde as mais óbvias como Mad Max e Caça-Fantasmas até aquelas escondidas como o doce de Halloween de Will Reese's Pieces (famoso por aparecer em E.T.) e um episódio de Punky, A Levada da Breca passando na TV. Cinema, séries, quadrinhos, animações, games, música tem referência para todos os gostos e espectadores. E por falar em música, a trilha sonora da época foi novamente escolhida a dedo, mas desta vez a maioria de seus momentos mais marcantes estão no episódio final.

Stranger Things 2 tem sim bons efeitos, boa música e muitas referências, mas tem consciência que a base do sucesso é esta nos personagens. Bem criados, desenvolvidos e com os interpretes certos, nos importamos com eles. Assim, mesmo que a história seja simples, com uma jornada conhecida essa empatia nos mantém presos na maratona. O roteiro bem amarrado e sem furos, apenas faz a dedicação valer à pena. Já que atenderam às expectativas, e provaram que o primeiro ano não foi um acerto acidental, que venham mais "bagulhos sinistros"!

A segunda temporada de Stranger Things  tem nove episódio com cerca de uma hora cada, todos já disponíveis na Netflix. 

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