segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Anne with an "E"

Descobri três coisas ao decidir assistir tardiamente Anne with an E da Netflix neste feriadão. Primeira, a história se passa no Canadá. Segunda, eu não sei muita coisa sobre o Canadá. E finalmente, não devia ter demorado tanto para assistir a produção. Baseado no romance Anne of Green Gables, de 1908 da canadense L. M. Montgomery, a série narra as aventuras da órfã otimista Anne Shirley (Amybeth McNulty).

O casal de irmãos em idade avançada Marilla e Mathew Cuthbert decidem adotar um menino para ajuda-los com os afazeres de sua fazenda Green Gables. Mas um mal entendido faz com que uma menina seja enviada do orfanato para sua casa. Diante da figura feliz e empolgada com a nova vida Mathew (R. H. Thomson) não tem coragem de esclarecer o engano e resolve levar a menina para casa, para que a irmã (Geraldine James) decida como resolver o problema. Começa aí a saga de Anne para convencer o casal a ficar com ela, encontrar seu lugar na comunidade de Avonlea e quem sabe superar os traumas de uma infância difícil.

Eu sei o que você deve estar pensando - porque também pensei isso -, esta é mais uma história de órfã otimista que supera as dificuldades e conquista a todos apesar de todas as circunstancias contrárias. E você não está errado. Entretanto esta versão opta por mostrar uma versão mais realista do universo em que a protagonista vive. Anne é otimista, sonhadora e a frente do seu tempo, é verdade, mas isso não necessariamente torna sua jornada mais fácil ou mesmo mágica.

Discriminada por ser de fora, por ser órfã, por ter trabalhado como criada (como se tivesse tido escolha), por ser ruiva e magricela, por ter conhecimentos e pensamentos diferentes. Anne precisa provar por que cada uma de suas características não são uma ameaça a sociedade a que pretende pertencer. Dessa forma o programa acaba abordando não apenas problemas que eram tabu na época como menstruação e adoção, como aqueles que são discussão apenas, ou ainda, hoje em dia, como igualdade de gênero, homossexualidade, auto-estima e bullying.

Os problemas são apresentados e resolvidos de forma episódica. Quase sempre com a protagonista encerrando um episódio com um problema ou condição que aparentemente vai ter aprender a conviver (a comunidade não a aceita por ser diferente), apenas para o episódio seguinte tudo ser resolvido (o fato de ser diferente, faz com que Anne salve a todos, e a comunidade a perdoa). O formato previsível diminui o impacto dos acontecimentos após alguns episódios, mas o desenvolvimento bem executado de cada problema compensa a falta de surpresa envolvendo o expectador na situação.

Também eficiente para manter o público interessado é o bem selecionado elenco principal. Carismática a pequena Amybeth McNulty, tem textos longos e complexos - Anne conhece as palavras mais difíceis e usa todas! E acertadamente mantém sua interpretação em um tom dramático - e as vezes até irritante - muito acima de todos os outros, evidenciando que ela não é apenas diferente, mas também mais sensível e intensa. Um sopro de vida naquela comunidade.

Já R. H. Thomson e Geraldine James surpreendem ao deixar transparecer aos poucos a verdadeira condição dos irmãos Cuthber, por trás das figuras do irmão calado e da irmã severa. Pessoas que perderam muitas oportunidades, e  que encontraram alguma alegria em seu cotidiano quando achavam que nada de diferente poderia acontecer com eles, e ao mesmo tempo enfrentam o momento mais frágil de suas vidas, a velhice.

A série tem sete episódios. O primeiro deles, em formato de filme, com 88 minutos, conta com uma fotografia mais rica e direção mais caprichada. A direção de arte mantém a qualidade da reconstrução de época durante toda a temporada. Os demais episódios tem 44 minutos cada.

Apesar da cara de produção infantil, Anne with an E é no mínimo uma produção para toda a família. Trtaz, inclusive alguns temas complexos demais para os pequenos. A primeira temporada termina com um grande gancho para o já confirmado segundo ano, além de já ter apresentado alguns temas ainda não completamente explorados. Uma agradável surpresa no catálogo da Netflix.

Anne with an E foi ao ar originalmente pelo canal canadense CBC e tem distribuição mundial pela Netflix. A segunda temporada terá 10 episódios deve chegar em 2018.
Leia Mais ››

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

The Leftovers (o livro)

A maioria das pessoas que conhece The Leftovers provavelmente o fez através da excelente série da HBO. Mesmo assim, não é muita gente que conhece a trama, apesar de primorosa a produção de TV não recebeu a atenção que merecia, inclusive da própria emissora que a ignorou na campanha para o Emmy. Mas não é o momento de valar da série - tem posts sobre todas as temporadas caso esteja curioso - este post é sobre a obra que a inspirou o livro homonimo de Tom Perrotta. Um material ao mesmo tempo diferente e muito parecido com a versão para as telas. Curioso, mas é possível.

Faz três anos que 2% da população mundial desapareceu, em um instante, sem aviso prévio, explicação, e retorno. Não parece muito, mas este percentual é suficiente para que todo mundo que ficou para trás conheça ao menos uma pessoa que tenha partido. Acompanhamos uma fase da vida destas pessoas que ficaram para trás, em sua jornada em busca de superação, ou o mais perto que conseguirem chegar disso.

Kevin Garvey se tornou prefeito e além de seus compromissos que nem são muito trabalhosos, tenta dar conta da filha adolescente e encontrar algo que o complete depois que a esposa o abandonou. A tal esposa Lauren, reagiu à dor da partida rejeitando as "futilidades" do mundo e se unindo a seita dos Remanescente Culpados, onde no ponto da história onde a encontramos, ela treina Meg, uma nova recruta. A filha do casal Jill sofre com a falta da mãe do típico jeito adolescente, se rebelando. Ela e o pai abrigam sua amiga de colégio e má influencia assumida Aimee. Outro que procurou novos caminhos espirituais foi Tom, filho de Lauren, atualmente protetor de uma adolescente grávida do "filho prometido" de um suposto messias. A única que acompanhamos que não faz parte da família Garvey é Nora, típica mãe de subúrbio que perdeu marido e os dois filhos na "partida repentina" e só busca uma forma de continuar.

Assim como parentes de pessoas desaparecidas do mundo real, estes personagens, anseiam por um encerramento. A maioria nem sequer consegue vivenciar o luto, pois já que não há explicação para o que aconteceu, sempre há a esperança do retorno dos entes queridos. Mas este livro é sobre pessoas, não sobre um mistério, ele não traz uma solução para o "arrebatamento". E nem se propõe a isso, o interesse é nas pessoas que ficaram e em como cada uma segue em frente.

Entre seitas estranhas, atitudes insanas, comportamento rebelde, busca e perda de fé e esperança quase todos encontram seu caminho de uma forma ou de outra. Uns melhores do que outros. Há inclusive quem cresça como Aimee, cuja jornada de amadurecimento e relação com Kevim é delicada e bem construída. Já as jornadas de Nora e Christine (adolescente de quem Tom toma conta), apesar de distantes acabam um paralelo curioso, seguindo em direção oposta em sua relação com a fé e esperança no futuro.

A trama é focada nas experiências de Kevin, Jill, Lauren, Nora e Tom, o que faz com que personagens que se relacionam com eles sumam e reapareçam de acordo com a necessidade. Entretanto, aqui o vai-e-vem é proposital e não um erro de desenvolvimento. Tentando emular a vida de uma sociedade conturbada e traumatizada, os encontros e desencontros enfatizam a sensação de quão desconectados e solitários estão nossos personagens, cada um lidando com seus conflitos, embora a origem do problema de todos seja comum. Propositais também são os saltos de tempo. Inicialmente causam estranheza, mas não demoramos muito para nos acostumar com o ritmo deste mundo, onde as pessoas estão se curando lentamente. Talvez em compasso de espera por um retorno, por medo de um novo evento, pelo fim de tudo. De qualquer forma, as ações levam tempo.

Nem os saltos de tempo, nem as múltiplas linhas narrativas centradas em personagens distintos atrapalham a fluidez do texto. Conciso, simples e envolvente, só deve desagradar aqueles que precisam de um desfecho com grandes respostas. Assim como os personagens nunca tem uma explicação para o desaparecimento de 2% da população mundial, nós também não temos muita certeza de como as histórias de Kevin, Jill, Lauren, Nora e Tom vão terminar. Mas, sabemos que elas vão continuar, para mim, isto é mais que satisfatório. Ainda sim, se para você não for o suficiente, tem sempre a série da HBO, que.... bom, também não dá uma resposta clara, mas vai mais fundo na jornada de cada um dos personagens!

The Leftovers (The Leftovers)
Tom Perrotta
Intrínseca
Leia Mais ››

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Forma da Água

Fábulas com monstros reais e criaturas fantásticas,repletas de lições e críticas, povoam o repertório de Guillermo del Toro. A Forma da Água traz novos personagens para esta galeria naquele que provavelmente é o mais doce entre seus contos de fadas modernos.

Uma criatura que bem podia ser "O Monstro da Lagoa Negra" é capturada na década de 1960, em plena guerra fria, pelos "estadunidenses". É claro que logo vira objeto de estudo em busca de uma possível vantagem sobre os soviéticos. Eliza Esposito (Sally Hawkings) é faxineira no laboratório secreto onde o homem anfíbio está sendo estudado, e graças a uma característica peculiar cria uma relação única com o monstro. Quando a vida dele é ameaçada a mocinha não mede esforços para salvar o novo amigo.

Elisa, é muda, não é infeliz por isso, mas também não tem nada realmente mágico em seu cotidiano repetitivo. Sem falar uma palavra Hwakings, consegue transmitir a fragilidade, compreensão e coragem da personagem, que sem preconceitos consegue amar o diferente. Além de encontrar nesta "novidade" forças para mudar sua vidinha. Parceiro de longa data de Del Toro e especialista em monstros com pesada maquiagem Doug Jones também constrói sua criatura completamente sobre gestos e olhares. Eficientes sozinhos, juntos a dupla é hipinótica. Impossível resistir passar horas tentando entender como sua relação se desenvolve, desde a linguagem até os sentimentos.

Enquanto a relação entre o monstro aquático e a princesa muda são o coração do conto, personagens a sua volta ajudam a história a andar. O patético porém adorável vizinho artista de Elisa, Giles (Richard Jenkins) que é perseguido constantemente pelo fracasso, medo e dúvida, mas no final acaba percebendo que tem coragem para fazer o que acredita. Já companheira de trabalho protetora e tagarela Zelda (Octavia Spencer, sempre divertida), é a voz de Eliza (e as vezes do espectador). Reúne as melhores falas, expressa alto o que gostaríamos de gritar para a tela, roubando sorrisos da plateia e as melhores falas do roteiro. Além de ser um contraponto eficiente para a protagonista silenciosa.

Temos ainda o cientista preso do lado errado do jogo (Michael Stuhlbarg) e o verdadeiro monstro da história. Richard Strickland (Michael Shannon, mergulhando de cabeça na maldade), é o caricato vilão de contos de fada, ainda sim carrega uma maldade que sabemos, existe no mundo real. Cego à seus objetivos não percebe que há algo de errado em suas escolhas mesmo que haja algo podre bem debaixo de seu nariz.

Se a maquiagem da criatura impressiona dentro e fora d'água, outras peculiaridades da direção de arte não ficam atrás. Criando um mundo azul petróleo turvo como as águas de um lago misterioso, sem muita luz ou esperança. A não ser é claro, no cinema embaixo do apartamento da protagonista (ela e o vizinho tem a sétima arte como válvula de escape), ou nas roupas de Elisa quando esta começa a encontrar magia na vida.

Apesar da magia, este conto de fadas não é para crianças. Aliás nem mesmo para adultos que não tenham mente aberta. O diretor inclui componentes picantes que dá mais importância aos aspectos desta relação madura entre os protagonistas. São personagens de fábula sim, mas são adultos inspirados em pessoas reais, logo, temas como preconceito, sexualidade, poder, racismo, auto-conhecimento, homossexualístico, humanidade, divindade, entre outros fazem parte de suas vidas. 

Em A Forma da Água a Princesa sem voz e a Fera que não precisa mudar em nada não dizem uma palavra, mas falam muito. E com muita gente, basicamente, todos os desajustados, excluídos e diferentes, e quem nunca se sentiu assim?

A Forma da Água (The Shape of Water)
EUA - 2017 - 123min
Fantasia, Drama, Romance

*Assistido em outubro de 2017 no Festival do Rio - A Forma da Água estreia em 11 de Janeiro de 2018
Leia Mais ››

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner 2049

Novos, e mais "obedientes", modelos replicantes substituíram os problemáticos e contestadores Nexus 8. Entre os modelos antigos, aqueles com prazo de expiração mais longo estão sendo "aposentados". Os agentes responsáveis por eliminar os velhos replicantes ainda são chamados de Blade Runner.

Em 2049, K (Ryan Gosling) encontra um artefato incomum durante uma de suas missões. Este o leva a uma investigação que desenterra segredos de 30 anos atrás que podem mudar a situação dos replicantes dos dias de hoje.

Com uma trama mais palatável e fluida que seu antecessor Blade Runner, o Caçador de Andróides (1982), 2049 não está livre de ser dependente do longa original. Sim, é possível acompanhar a trama sem conhecer a aventura de Deckard (Harison Ford) . Mas tudo faz mais sentido e fica mais interessante com a bagagem prévia. E nem estou falando dos muitos easter eggs e referências espalhadas ao longo da projeção.

A desvantagem no entanto, fica por conta da previsibilidade. Se você já está familiarizado com o universo e seus dilemas, não demora muito para desvendar o quebra-cabeças e descobrir o rumo que a história pretende tomar - ler algumas das sinopses também não ajuda. Não há nada de errado com a jornada escolhida, mas quando a expectativa substitui a surpresa os passos de K podem soar lentos para alguns. Ritmo também herdado do longa da 1982.

Os muitos questionamentos sobre humanidade e a condição de cada um dos seres que habitam esse universo estão de volta, ganham novas nuances e ficam mais complexos. Um bom exemplo é a relação de K com Joy (Ana de Armas). Ambos modelos de vida artificial, mas aqui o replicante é dono e consumidor da acompanhante/propriedade,por quem nutre sentimentos complexos, que são retribuídos. Não apenas emulando uma situação que poderia aconteceram entre humanos e replicantes, como criando uma nova questão. Modelos de vida artificial são capazes de amar?

Aparentemente amam sim! Já que agora não há mais questionamentos sobre a natureza de Deckard. e ele amava Rachel. Se antes as discussões eram sobre quem era humano ou robô, agora a questão é se essas rótulos fazem diferença. Será que as duas "espécies" são mesmo tão distintas? O que é necessário para que os replicantes sejam considerados seres vivos donos de si? Não que estas questões não pudessem ser levantada antes, mas agora elas são o centro das atenções.

E por falar em questionamentos, algumas teorias, como a que mencionei acima, são desvendadas. Enquanto novas possibilidades são entregues, oferecendo material para outras três décadas de discussão. Embora eu acredite que a próxima sequência não deva levar tanto tempo assim para acontecer.

Visualmente Blade Runner 2049 assume bem as características de seu longa de origem, mas aproveita trinta anos de evolução tecnológica e um orçamento mais generoso para criar um visual ainda mais refinado. É o mesmo mundo, estilizado, confuso, poluído e esfumaçado, mas agora está mais agradável aos olhos.

Harrison Ford está de volta para garantir o fator nostalgia, mas o Blade Runner aqui é Ryan Gosling. O novo protagonista acerta no tom hora robótico, hora emocional de uma máquina que de percebe um ser vivo. Todo o elenco segue afinado, outro destaque é a Armas, com sua carismática e versátil Joy. Apenas Jared Leto parede, deslocado, ao se esforçar demais para evidenciar a deficiência visual de seu personagem. Os trejeitos ficaram exagerados destoam do resto, mas este é o estilo de sempre do ator, então só posso imaginar que de alguma forma a escolha foi proposital.

Blade Runner 2049 é mais acessível, e até mais divertido que o Caçador de Andróides, embora ainda dependa muito da memória afetiva do público para se tornar um hit. Ainda sim deve fazer sucesso enquanto ainda está nos cinemas, o que é um avanço em relação ao original que infelizmente só foi "descoberto" pelos fãs bem mais tarde.

Blade Runner 2049
EUA - 2017 - 163min
Ficção científica, Suspense
Leia Mais ››

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Onde Está Segunda?

Um encontro de Black Mirror com Orphan Black, com um elenco de peso e a liberdade criativa que a Netflix costuma oferecer à seus criadores de conteúdo. Onde Está Segunda? tinha potencial para ser uma ficção-cientifica impactante, mas se perde na proposta e fica só na promessa.

Em um futuro não muito distante, a superpopulação está colocando a humanidade e o planeta em risco. A solução cientifica aplicada só agrava o problema levando o governo a adotar a política do filho único. Irmãos são preservados em criogenia para quando a crise for solucionada. Terrence Settman (Willem Dafoe) se descobre com sete netas, gêmeas idênticas(Noomi Rapace). Ele resolve manter as sete meninas, fazendo com que elas revezem a mesma identidade de Karen Settman ao longo dos sete dias da semana que as nomeiam. Isso funciona por trinta anos, até que Segunda não volta para casa. Do outro lado do jogo, as autoridades responsáveis por manter a lei do filho único representados pela figura da criadora do projeto Nicolette Cayman (Glenn Close).

Uma sociedade distópica, porém completamente plausível (vai dizer que não estamos caminhando para isso?) cheia de questionamentos. O dilema de um avô que ao mesmo tempo que o torna em um salvador o coloca em papel de carrasco. A complexa adaptação de sete identidades distintas para dividir uma única vida. E a própria convivência permanente forçada destas mulheres, que não encontram solução melhor para sobreviver ao sistema. Não falta discussões e dilemas interessantes a serem explorados no argumento deste longa.

Apesar de tantas opções, Onde Está Segunda? prefere privilegiar a ação em torno do mistério do título. Transformando a trama em uma história de detetive com boas sequencias de perseguição e luta, mas cujas protagonistas tem suas características determinadas pela necessidade na trama. Assim, temos a atleta, a hacker, a festeira a rebelde e por aí vai.


Se as habilidades da maioria das irmãs é perceptivelmente conveniente a trama, também não demora muito para percebermos aquela que terá maior protagonismo. Basta procurar a de personalidade menos "rasa", porém não menos caricata. Sim, Rapace é eficiente em definir e delimitar cada uma delas, mas o roteiro não escolheu características interessantes, ou mesmo realísticas para nenhuma. E muito pouco conhecemos da maioria das moças.

Enquanto isso, as pistas que elas descobrem logo deixam claro para o espectador mais atento o mistério por trás do sumiço de Segunda. Já os motivos para tal desaparecimento podem até não ser tão óbvios, mas soam incoerentes no contexto. Outros pensamentos podem te incomodar a partir do momento em que o mistério deixa de ser uma preocupação, como: será que nenhum dos vizinhos nunca ouviu sete meninas no andar de cima? O avô delas é rico para ter um apartamento tão espaçoso em um mundo com problemas de superpopulação? E como ele justifica o consumo de alimento e roupas para oito pessoas em uma casa que supostamente só tem duas?

Rapace é boa em cenas de ação, que neste longa são bem conduzidas, assim como a criação de um mundo sem esperança e super lotado. Também eficientes são Glenn Close e Willwm Dafoe com seus personagens ambíguos, mesmo com tão pouco tempo de tela. Mas isso, nós já sabíamos. Onde Está Segunda? prometia adicionar discussões densas, e ousadia à estas já conhecidas qualidades. Um conteúdo rico que poderia se tornar uma incômoda (no melhor sentido, aquele que nos faz pensar) e memorável ficção-cientifica, sobre nossos tempos. Entretanto, o desconforto que fica é por conta da sensação de desperdício generalizado ao fim da sessão.

Onde Está Segunda? (What Happened to Monday?)
EUA, Reino Unido, França, Bélgica - 2017 - 124min
Ficção científica, Suspense
Leia Mais ››

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Kingsman: O Círculo Dourado

Segundo a cartilha de clássicos da espionagem como James Bond, um bom agente secreto precisa ser ágil, destemido, habilidoso, infalível, invulnerável ao álcool e um grande garanhão que salva o mundo sozinho. Já os filmes que eles protagonizam tem que ter gadgets impossíveis, vilões caricatos com planos mirabolantes, reviravoltas e cenas de ação gigantescas. A menos é claro que você seja um agente da Kingsman!

Desde sua primeira aventura nas telas a franquia subverte este livro de normas, seja invertendo seus valores, seja exagerando ao ponto de transformá-los em comédia voluntária e consciente de seus absurdos. É desta inteligente e ousada crítica ao "lugar comum" do gênero da espionagem que vem o frescor e charme da franquia. E apesar de não ter mais a surpresa da novidade do primeiro longa, Kingsman: O Círculo Dourado conta com a satisfação do reencontro com personagens que já amamos.

Um grandioso ataque quase elimina a agência e obriga Eggsy (Taron Egerton) e Merlin (Mark Strong) a buscar uma ajuda emergencial inédita, é assim que descobrimos a existência dos Statesman. Uma instituição "estadunidenase" de espionagem onde trabalham Tequila (Channing Tatum), Whiskey (Pedro Pascal), Champagne (Jeff Bridges) e Ginger (Halle Berry). Eles precisam impedir a mega-vilã da vez, a maior traficante de drogas do mundo, Poppy (Julianne Moore).

Um agente já experiente em campo os desafios de Eggsy agora são seguir com a missão enquanto encara a dor da perda, e tenta balancear a vida de agente com a amorosa. - Lembra daquela princesa? Pois é, ela não era uma mera Bondgirl EggysGirl!?! - Já Merlin encara situações novas para um veterano. Enquanto a surpresa desperdiçada pelo marketing, que informou desde o início o retorno de Harry Hart, ao menos oferece a Colin Firth a oportunidade de dar novas nuances ao outrora "agente perfeito" Galahad.

Enquanto a história da Kingsman e de seus funcionários segue em frente descobrimos a familiar dinâmica da Statesman. A agência do outro lado do Atlântico tem estrutura propositalmente semelhante à britânica. Na trama, porque as instituições tem a mesma base. Na realidade, um jeitinho divertido de dizer que agências secretas de cinema no fundo são todas iguais. 

Outras críticas e piadas que vem atreladas ao novo país são o patriotismo exagerado, a "lentidão mental" dos americanos e Donald Trump. Entre os convidados o destaque fica com o Pedro Pascal (o Oberin de Game of Thrones). Whiskey é o agente Statesman com mais tempo de tela, um cowboy mulherengo sem medo de dizer o que pensa. É dono do gadget/arma inovadora da vez e consequentemente de algumas das melhores cenas de ação.


E por falar nas sequências de ação, não há nenhuma tão marcante ou surpreendente quanto a cena da igreja protagonizada por Firth em Serviço Secreto. Mas todas tem a estética, dinâmica e qualidade que chamaram a atenção no filme anterior. Violência estilizada, câmera nervosa, cortes dinâmicos em sincronia com a trilha sonora, sempre ágil, exagerada e nunca incompreensível.

Compreensível também são as motivações de Poppy, até porque ela faz questão de explicar direitinho como toda boa vilã. Isto é, compreensível, dentro do universo de vilões cartunescos que querem dominar o mundo de um jeito ou outro. Moore entrega um perfeita dona de casa dos anos de 1950, tão elegante e impecável quando implacável para alcançar seus objetivos. Presa em seu próprio mundo perfeito, Poppyland, que mistura alta tecnologia e nostalgia, faz várias referências e analogias ao mundo não tão sublime que pode se esconder por baixo das aparências.

Se o primeiro longa fazia piada com os clichês dos filmes de espionagem, Kingsman: O Círculo Dourado não tem vergonha de zoar a si mesmo. Recria inclusive situações do primeiro filme, apenas para brincar com suas expectativas. Critica a necessidade da indústria a megalomania a indústria, sendo megalomaníaco. Repete um pouco do que o seu antecessor fez, é verdade! Mas assume isso, e aproveita para criticar a fórmula pronta. Sempre com um roteiro coerente, bem dirigido, com elenco afinado, boas cenas de ação e a melhor participação de Elton John que você vai ver em um filme!

Kingsman: O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle)
Reino Unido, EUA - 2017 - 141min
Ação, Espionagem, Comédia


Leia a crítica de Kingsman: Serviço Secreto

Leia Mais ››

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Fuller House - 3ª temporada (parte 1)

Em 22 de setembro de 1987 estreava Full House (nosso Três É Demais) na TV estadunidense. Exatos 30 anos mais tarde, na última sexta-feira, 22 de setembro de 2017, a terceira temporada de seu bem sucedido remake/revival, Fuller House chega à Netflix. E apesar de toda a "coincidência" numérica (mesma data, 3ª temporada-30 anos) faltou um pouco de mágica na celebração de três décadas da família Tanner.

Com duas temporadas em seu ano de estreia, Fuller House ganhou um terceiro ano com mais episódios. Dezoito ao todo, a primeira metade deles liberada na celebração dos trinta anos da série, o restante ainda sem data de estreia.

Sem grandes reuniões do elenco, celebrações ou mesmo flashbacks o desenrolar destes primeiros episódios surpreendeu muitos fãs ao não se render à nostalgia e comemorações. Contrariando as expectativas criadas pelo próprio marketing da série que a série criou. A independência gradual de DJ, Steph e Kimmy dos "adultos originais", e suas aparições cada vez mais pontuais, é esperada, mas o momento pareceu errado.

Já o desenvolvimento das personagens melhorou desde a última temporada equivocadamente focada apenas em romance. Sim, DJ (Candace Cameron-Bure) ainda está às voltas com seu "quadrângulo amoroso" com Steve, Matt e CJ (Scott Weinger, John Brotherton e Virginia Williams respectivamente), mas ao menos Stephanie (Joodie Sweetin) ganhou uma trama que não está relacionada a interesses românticos. A caçula que já havia anunciado que não pode ter filhos, resolve encarar o desafio de se tornar mãe de alguma forma.

Kimmy (Andrea Barber) foi quem realmente saiu perdendo. Tanto sua trama profissional, quanto a disputa pela atenção de sua filha ramona com o marido foram transformados em meros alívios cômicos resolvidos com piadas e abraços. É verdade que esse tipo de desenvolvimento raso também acontecia com seu "co-relato das antigas" Joey (Dave Coulier), mas com muitos mais episódios era possível trabalhar melhor estes dilemas e humanizá-lo em alguns momentos evitando que o personagem viva constantemente na caricatura.

Quem também vive constantemente na caricatura é Fernando (Juan Pablo Di Pace), mas para o estranho ex-marido de Kimmy isso funciona. Alívio cômico assumido ele é a versão dos tempos de hoje do que a própria Kimmy era nos anos 80, com direito a rixa com o irmão do meio da família e com o pai responsável dispensando sua presença. Embora a insistência de DJ e expulsa-lo "delicadamente" ao invés de simplesmente falar civilizadamente com o homem adulto que o quer fora da casa soe muito estranha em um dos episódios.

E por falar no irmão do meio, o pequeno Max (Elias Harger) começa a dizer à que veio com seu pequeno gênio cheio de manias. O bebê Tommy (Dashiell e Fox Messitt) também começa a interagir com o elenco. E Ramona (Soni Bringas) já se destaca desde o primeiro ano. Michael Campion e os roteiristas precisam correr atrás e tornar Jackson algo mais interessante que o adolescente bobo que é no momento. Quem sabe restabelecer a relação de irmãos que estavam criando com Ramona na temporada anterior e que aqui foi deixada de lado.

Com muitos deslizes, esta "meia temporada" de Fuller House foi um banho de água fria em fãs nostálgicos e ávidos por celebração. A boa notícia é: esta é apenas metade da temporada, talvez as ausências e falhas sejam apenas por não termos a obra completa. - Porque dividir Netflix?
Esse reencontro completo? Por enquanto só no trailer!
Enquanto os nove episódios restantes não chegam o jeito é imitar os Tanner e praticar a compreensão e paciência. Esperar pelo fim da temporada de braços abertos e torcer para que esta venha cheia de abraços e rizadas como de costume. 

As duas primeiras temporadas de Fuller House tem 13 episódios cada. Este 3º ano terá 18 episódios ao todo, metade deles já está disponível na Netflix. Todas as 7 temporadas de Três É Demais também estão no serviço de Streaming. 

Leia mais sobre sériesNetflix e Fuller House
Leia Mais ››

sábado, 23 de setembro de 2017

Death Note

Talvez seja hora da Netflix frear a enxurrada de produtos originais. Dar um passo atrás, observar sua galeria e dar atenção aos projetos que já tem, pois Death Note é um dos muitos equívocos que do serviço de streaming nos últimos meses.

Inspirado pelo mangá de Tsugumi Ohba esta releitura mantém a premissa instigante, um adolescente encontra um caderno que permite ao seu portador matar pessoas apenas escrevendo seus nomes nele, o tal Death Note. Se ter o poder sobre a vida e a morte já é tarefa complexa para seres mitológicos, imagina para um adolescente comum. Mas desta vez a história se desenrola em Seatle em um típico high scholl estadunidense.

A adaptação para o público ocidental, que inclui mudança de cidades, de etnias e nomes de personagens, e até de algumas regras do caderno já eram previstas. E não existe nenhum problema nestas alterações. A complicação veio quando o roteiro resolveu simplificar os dilemas que essa grande responsabilidade traz para a vida Ligth (Nat Wolff, completamente perdido).

Apresentado como um jovem com inteligência acima da média, e frustado com o fato do assassino de sua mãe sair impune, a primeira grande utilidade que o protagonista encontra para o Death Note é... impressionar uma garota. Mia Sutton (Margaret Qualley, muito bem em The Leftovers, aqui apenas fazendo o possível) até tem uma personalidade mais instigante, mas não escapa do papel de bode expiatório do roteiro que tem a necessidade patológica de transformar o mocinho em um herói.

Ao se tornar juiz, juri e executor, Ligth não passa por nenhum dos dilemas que mesmo justiceiros ou vigilantes enfrentam ao fazer justiça com as próprias mãos. Quais os limites para alguém com tamanho poder? Como manter questões pessoais afastadas de seu julgamento? Entre outras questões. Também há toda questão da mitologia em torno do caderno, sua origem, usos, portadores, regras (e a possibilidade de burlá-las) que nunca são de fato exploradas.

E por falar na mitologia em torno do Death Note, é nela que está o único grande acerto da produção. Ryuk, o shinigami dono do caderno que aqui tem o papel apenas de atiçar o menino a usá-lo, ganhou um visual interessante, muito fiel à 'versão desenhada', mas que funciona em live action, embora o tom do filme não comporte sua presença em muitos momentos. A escolha de Willem Dafoe como seu interprete também é afinada. Especialista em vilões, é o melhor em cena, sem no entanto estar lá literalmente.

Outra chance desperdiçada é o embate de cérebros entre os supostos gênios, Light e L (Lakeith Stanfield). A dupla até engaja uma caçada estilo gato-e-rato enquanto o -"consultor?"- prodígio tenta persegue o culpado pelas mortes misteriosas. O que ele faz usando pistas surgidas por mágica, lógica misteriosa, e escolhas confusas como base de investigação. O que torna todo o arco policial pouco convincente e muito dependente da boa vontade do espectador.

Mesmo as novas regras criadas pelo filme são mal utilizadas. A principal delas, que permite a escolha da forma em que a pessoa vai morrer, serve apenas para manipular à trama para criar um desenrolar conveniente e criar "mortes mais legais". Já as mortes, tem o estilo da franquia Premonição. Gráficas e exageradas fingem impactar, mas não são comprometedoras de verdade para que o filme encaixe na censura de 16 anos.

Não é incomum uma produção flertar com vários gêneros, mas Death Note simplesmente não sabe a que gênero pertence. Policial, terror, comédia, filme de high school, todos presentes e construídos com tons diferentes que não conversam entrem si. Talvez por isso a escolha da trilha sonora seja tão desastrosa, as letras podem até dialogar com o tema, mas o tom simplesmente não encaixa e o você se descobrirá pensando na música ao invés do que está acontecendo na tela como um todo.

Explorar seus temas com uma nova visão, oferecer uma abordagem diferente, atualizar para novas gerações, trazer para um público novo, existem várias razões para criar uma nova adaptação de uma obra. Entretanto, se ao fazer isso você vai deixar de lado suas principais características e temas, ou seja o que faz única, porque adaptar. Crie algo novo! Talvez seja a hora da Netflix questionar um pouco mais seus motivos e objetivos antes de criar uma nova adaptação.

Death Note
EUA - 2017 - 101min
Suspense, Terror, Fantasia
Leia Mais ››
 
Copyright © 2014 Ah! E por falar nisso... • All Rights Reserved.
Template Design by BTDesigner • Powered by Blogger
back to top